DELEGAÇAO ESTATAL DE PORTUGAL


«GUALDIM PAIS»



NOMEN

  • Gualdim Pais

    (Notas de Teresa Tavares Furtado - Arquitecta e Delegada da Sociedade de Estudos Templespaña em Portugal)


    As Ordens do Templo e de Cristo em Portugal. Breve síntese

    A Ordem do Templo em Portugal encontra-se estreitamente ligada à construção do reino/reconquista cristã, à Ordem de Cister e a São Bernardo de Claraval.

     

    Insere-se num movimento mais vasto, o das Cruzadas como milícia independente do poder real, utiliza o combate como difusor teológico e via de salvação do indivíduo, dinamiza o povoamento do território e a exploração do espaço reconquistado, enquadrando civil e religiosamente as populações e participando activamente na defesa das áreas de fronteira existentes e criadas à medida que a reconquista se desloca para Sul (Sousa Fernandes, 2007).

     

    Torna-se guardiã dos lugares santos da Terra e respectivas tradições e vai deter uma posição privilegiada na geopolítica peninsular, terreno propício para o contacto com formas singulares de espiritualidade, em particular com a herança do mundo antigo preservada pelo Islão (Gandra, 2006).

     

    Terá surgido no Condado Portucalense em data incerta, entre 1120 e 1130, sendo consideradas as doações da vila de Fonte da Arcada e seu termo (Penafiel) em 1126, e do castelo de Soure e seu termo, em Março de 1128, por D. Teresa viúva do Conde D. Henrique, como os primeiros testemunhos documentais da sua presença no Condado, embora existam referências a dignatários daquela Ordem em datas anteriores.

     

    A sede da Ordem do Templo inicialmente em Fonte da Arcada (até 1128) passa sucessivamente até à sua extinção, para Soure (1128-1147), Santarém (1147-1159) e Tomar(1160-1312). Alguns autores defendem que Castelo Branco terá sido sede da Ordem no período de 1215-1312 (Capelo, 2007).

     

    Na sua implantação no espaço português podem considerar-se, em síntese, os períodos seguintes (Nogueira, 1991):

     

        Um período inicial de 1126 a 1158, com implantações sucessivas em Fonte da Arcada, Soure e Santarém;

     

        De 1158 a 1288, correspondendo ao momento de expansão, a implantação da Ordem em Tomar, sua ocupação até ao rio Tejo e terras a Nascente do rio Zêzere e Castelo Branco, organizada pelos Procuradores/Mestres de superintendência apenas no reino português (até 1212), seguindo-se os Mestrados de D. Pedro Alvito a D. João Fernandes, com superintendência nos três reinos de Portugal, Leão e Castela, de 1212 a 1288;

     

        O Período final de 1288 à sua extinção em 1312.

     

    Na Península Ibérica as implantações preferenciais da Ordem foram os espaços de fronteira entre os reinos cristãos e muçulmanos, os caminhos de peregrinação, em particular o de Santiago de Compostela e os núcleos inseridos numa geografia sagrada, de que Tomar e Alcobaça são exemplo.

     

    Implanta-se em áreas a Sul do Rio Mondego, onde se destacam, inicialmente, os castelos de Soure, Pombal, Tomar, Almourol, Ozêzere e mais tarde o de Leiria (fundado pela Coroa), para em complemento com torres atalaias, defenderem as vias de comunicação com Coimbra, então capital do reino, e as dos coutos de Alcobaça (Cister), ocupando igualmente a Beira Central e a interior e posteriormente uma faixa a Sul do Tejo.

     

    Os castelos da Ordem com guarnições e capacidade para suster um cerco prolongado, constituíam em simultâneo centros incentivadores de vida económica, característica que se acentua à medida que a frente da reconquista se expande para Sul.

     

    Assim, impediam o avanço muçulmano e contribuíam em simultâneo para o desenvolver e povoamento das terras do reino, através da sua defesa e incentivo à fixação dos homens, pela doação de cartas de foral e da valorização dos campos, renovando o sistema agrícola e hidráulico.

     

    Poderá ainda afirmar-se que a implantação de alguns castelos e desenvolvimento das terras constituíram um notável contributo para a modulação da paisagem de que Tomar será um paradigma (Barbosa, 2003/Gandra, 2006).

     

    A Regra da Ordem tardiamente definida em 1163 pressupunha uma comunidade de monges-guerreiros coesa, onde a Comenda detinha autonomia financeira e jurídica e a recepção dos novos membros se efectuava sob a alçada de um visitador, designado pelo Capítulo Geral (Gandra, 1998).

     

    A Regra Primitiva permitia aceitar os irmãos regulares e os familiares ou donatus, à maneira de uma ordem terceira, na qual se pensa ter chegado a filiar-se D. Afonso Henriques (Gandra, 1998).

     

    A acção dos monges de Santa Cruz de Coimbra, das Ordens de Cister e do Templo vão permitir a D. Afonso Henriques a construção e afirmação do novo reino peninsular de Portugal.

     

    A Ordem de Cister, sob a influência de São Bernardo, chega a Portugal em 1144, data da fundação do Mosteiro de São João de Tarouca, que com Santa Maria de Salzedas e Alcobaça, filiados directamente na Abadia de Claraval, vão constituir os Mosteiros de Cister mais representativos no reino.

     

    Daqueles destaca-se Alcobaça (doação em Abril de 1153 de D. Afonso Henriques) constituída por vastos domínios entre São Pedro de Muel, Lourinhã, Serra dos Candeeiros e Rio Maior, possibilitando uma nova realidade espiritual, política e económica, que passa por um novo programa construtivo e gosto decorrentes da reforma de Cister por São Bernardo de Claraval, numa busca de autenticidade e despojamento, na sua recriação da Cidade de Deus.

     

    A essência da missão ecuménica templária, terá sido a preparação no temporal, para a Jerusalém Celeste, profetizada por São João no Apocalipse (Quadros, 1985).

     

    A arquitectura templária, militar e religiosa, denota uma influência de São Bernardo de Claraval, não apenas ao nível do seu despojamento, unidade e harmonia. Os castelos como centros de poder tentariam restabelecer um espaço sagrado à imagem daquele que entretanto se estaria a dissolver no Oriente, sua sede espiritual (V. Oliveira, 2007).

     

    Os diversos tipos de estruturas pré-existentes, em várias fases de evolução com que se depara a Ordem, vai determinar várias escalas de edificação, e conduzir a diferentes morfologias de núcleos defensivos, em particular pela sua adaptação ao lugar, uma das características construtivas templárias (V. Oliveira, 2007).

     

    O Mestrado de D. Gualdim Pais (1157-1195) poderá ser considerado o período de ouro da Ordem do Templo em Portugal, correspondendo os anos 1156-1175 ao momento chave da afirmação da Ordem entre nós, e a um período de acentuado dinamismo construtivo, com a introdução de alguns elementos técnicos inovadores (Barroca, 1996-1997).

     

    A confiança que lhes é concedida por D. Afonso Henriques, sobretudo no âmbito do prestígio e merecimento demonstrado a D. Gualdim pela entrega de vastos domínios, em zonas vitais na defesa do reino, poderá confirmar que detinha as melhores técnicas militares da época, assim como, uma estratégia conivente com a Coroa portuguesa (Barroca, 1996-1997).

     

    Aos elementos inovadores —a torre de menagem (torre geralmente destacada dos panos de muralha em posição de destaque), o alambor (estrutura de reforço em plano inclinado, colocada na base das torres de menagem ou panos de muralha), a barbacã (recinto exterior mais baixo destinado a proteger portas ou torres) e as hurdes (estrutura em madeira inserida no cimo de muralhas/torres permitindo a defesa dos sitiados por lançamento de elementos vários)— associaram um sistema de defesa com base numa rede apertada de castelos (V. Oliveira, 2007).

     

    Assiste-se ao sucessivo povoamento e reconstrução militar de Pombal, Ega e Redinha, à fundação de Tomar e seu castelo, à construção da sua Rotunda ou Charola com provável influência da Cúpula erguida no Monte Moriah em Jerusalém no século VII, da Igreja de Nossa Senhora do Olival (panteão dos Mestres do Templo e mais tarde modelo das igrejas construídas no além mar português, sob o mestrado da Ordem de Cristo) e à ordenação e povoamento dos seus termos, assim como, à construção/reconstrução dos Castelos de Ozêzere, Almourol, Castelo de Bode, Torres Novas, Cardiga, Pias, Dornes e Sertã, à fundação dos lugares da Golegã e Casével, referindo ainda embora sem ordem cronológica, Alpalhão, Nisa, Arez, Montalvão, Ródão, Rosmaninhal, Segura, Proença-a-Velha, Salvaterra do Extremo, Idanha-a-Velha, Idanha-a-Nova, Penha Garcia, Proença-a-Velha, Castelo Novo, Castelo Branco, Monsanto, Penamacor.

     

    A Oriente do reino, poderemos acrescentar ainda em Trás-os-Montes, os castelos de Penas Róias, Bemposta, e Mogadouro e na Beira interior Numão, Muxagata, Longroiva, Marialva, Castelo Mendo, Trancoso, Vilar Maior, Marmeleiro, Vila do Touro e Sabugal, núcleos que mais tarde serão particularmente importantes na consolidação do país (séculos XIV-XV).

     

    Verifica-se que a assídua intervenção da Ordem do Templo se torna mais premente na segunda metade do século XII, com D. Gualdim Pais e se vai esbatendo no tempo à medida que a área de fronteira se alarga para o Sul peninsular e se incentiva o contributo defensivo das ordens militares do Hospital, Avis (Calatrava) e Santiago.

     

    No Reino de Portugal, após a sua extinção oficial no Concílio de Viena (1311-1312), a Ordem dos Cavaleiros do Templo teve continuidade na Ordem da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo/Ordo Militiae Jesu Christi, criada pelo rei trovador D. Dinis, para integrar os seus membros e bens, a 14 de Agosto de 1318 e a seu pedido, pela necessidade de manter a luta contra os muçulmanos e a defesa da fronteira Sul, confirmada pela Bula Ad ea exquibus do Papa João XXII, de 14 de Março de 1319.

     

    Paralelamente, no reino de Valência, fora instituída a Ordem de Santa Maria de Montesa, a 10 Julho de 1317, sob a égide da casa de Aragão, integrando os elementos da extinta Ordem do Templo, Ordem confirmada pela Bula Ad fructus uberis de João XXII.

     

    A Ordem de Cristo sediada em Castro Marim diocese de Silves, integrada na fronteira Sul, ameaçada ainda pela presença muçulmana no reino de Granada e Norte de África, mantém uma continuidade com a Ordem do Templo - passa a obedecer à Regra de Calatrava, a deter como visitadores os Abades de Alcobaça e a prestar obediência a Cister, a quem competia receber o juramento dos Mestres, em nome da Igreja e a vestir um hábito branco com uma cruz igualmente vermelha.

     

    O Mestre passa no entanto a residir em Castelo Branco permanecendo em Castro Marim apenas alguns elementos.

     

    A Ordem de Cristo irá regressar a Tomar em 1357 onde se vai manter até à sua extinção em 1834.

     

    Mas na Bula da sua fundação, ficara acordado que o Mestre da Ordem de Cristo teria de se apresentar perante o rei, prestar-lhe juramento e menagem, antes de assumir a sua dignidade. A Ordem e a Coroa estabelecem um entendimento político comum.

     

    No século XV, D. João I distribui o Mestrado das Ordens Militares de Santiago (1418), de Cristo (1420) e Avis (1483) respectivamente pelos seus filhos os Infantes D. João, D. Henrique e D. Fernando, como instituições senhoriais.

     

    Assim, pela Bula Eximie Devocionis affectus o Infante D. Henrique passa a administrador perpétuo da Ordem de Cristo recebendo mais tarde a confirmação régia de todos os privilégios daquele mestrado.

     

    Paralelamente, participa com seu pai e irmãos na política de afirmação da monarquia e no projecto de cruzada, Marrocos será agora a nova Terra Santa, concedido pelo Papa João XXIII. A Bula Eximie devocionis autorizava as ordens militares a colaborar com a monarquia na guerra contra o infiel, no mesmo espírito da Bula de Cruzada concedida em 1341.

     

    Deste modo, os cavaleiros da Ordem encontrando-se ao serviço do rei constituíam o seu suporte militar contra os muçulmanos e na expansão da fé e a sua expressão institucional (Sousa e Silva, 2002), não esquecendo num segundo momento a sua importante acção na expansão marítima no Atlântico com D. Henrique e para o Oriente sob o Mestrado de D. Manuel I.

     

    No ano em que D. Henrique assume o cargo de Administrador Perpétuo da Ordem de Cristo é igualmente ordenada pelo papa a revisão das suas Ordenações e Estatutos.

     

    Em 1443, o papa Eugénio IV pela Bula Etsi suscepti cura regiminis autoriza o Infante a receber o hábito e a professar na Ordem, mantendo o seu património senhorial que continuará a administrar, a legar em testamento e a incrementar.

     

    Alguns anos mais tarde (1449) fica assente em Capítulo Geral o direito dos freires da Ordem de Cristo poderem dispor dos bens em legado testamentário e também alterações à Regra, Estatutos e Definições.

     

    Pela sua morte em 1460 o seu cargo será sucessivamente ocupado de 1460 a 1470 pelo Infante D. Fernando e de 1471 a 1484 pelo Duque D. Diogo. Segue-se o Duque D. Manuel como Grão-Mestre da Ordem de 1484 a 1495, altura em que sendo nomeado rei (D. Manuel I) se irá manter naquele mestrado até 1521, ano da sua morte.

     

    Numa política de contínua sujeição da Ordem de Cristo ao poder da Coroa assiste-se à clivagem da sua estrutura com D. João III, de 1529 a 1532, através da sua Reforma executada por Frei António de Lisboa, passando do seu estatuto de monges-cavaleiros a monges de clausura. Antigos freires são expulsos e são elaborados novos estatutos - Bula de confirmação da Reforma da Ordem de Cristo de 1 de Julho de 1531.

     

    O Papa Júlio III em 4 de Janeiro de 1551, a pedido de D. João III, através da Bula Praeclara charissimi in Christo, vai conceder in perpetuum a união dos mestrados das ordens militares de Cristo, Santiago e Avis, à coroa de Portugal, passando aquela a deter o seu mestrado e a jurisdição eclesiástica no ultramar.

     

    A Ordem de Cristo através do seu apoio económico à coroa portuguesa e à transmissão do seu saber da arte de navegar e construção náutica, que herdara da Ordem do Templo, vai deter uma acção e contributo fundamentais no avanço da expansão marítima atlântica e a oriente, incluindo o sequente salto civilizacional do mundo.

     

    Foram os Cavaleiros da Ordem os capitães das caravelas dos mares e os homens a seu mando possuiriam uma particular consciência do serviço a realizar (A. Quadros, 1999), que uma acção conjunta tornará possível a aquisição de novos e mais profundos conhecimentos, a todos os níveis, que rapidamente se vão espalhar pelo mundo.

     

    Posteriormente, a Ordem de Cristo reformada e secularizada pela rainha D. Maria I, em 1789, que passa a seu Grão-Mestre, é convertida numa Ordem Honorífica de recompensa por serviços militares, políticos e civis, relevantes e mais tarde será extinta em 1834, no tempo de D. Maria II.

     

    Continuando como Ordem Honorífica, após a Carta Constitucional entrar em vigor, será extinta em 1910 com a revolução de 5 de Outubro.

     

    Os bens da Ordem, após a sua extinção, foram subsequentemente anexados à coroa, distribuídos por instituições do estado, pelo clero secular ou vendidos a particulares.

     

    Em 1918 a Ordem de Cristo será restabelecida como Ordem Honorífica pela República, durante o governo de Sidónio Pais. Presentemente detém como Grão-Mestre o Presidente da República e apresenta cinco graus (Grã-Cruz, Grande-Oficial, Comendador, Oficial e Cavaleiro ou Dama).





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